Thursday, March 7, 2013

Tu falas alto, mas quem manda aqui sou eu


Hoje, faz 10 meses desde o diagnóstico.
Sinto-me estranho. Sinto-me quase optimista. É estranho que "quase optimista" seja estranho.
Tudo isto é estranho, nada há a fazer.

Dei a mim mesmo os 12 meses de luto. "Vais ter um ano para engolir este sapo, para te conformares, para perceberes o que isto quer dizer, para chorar, para ser amargo, para todas essas merdas. Depois, segues em frente."

Obviamente, não posso levar isto totalmente à letra. Mas, a verdade é que realmente quero cumprir com o famoso período de 12 meses de luto. E não esticar muito mais para além disso. Imagino que alguém que tenha sido diagnosticado há muito mais tempo que eu, leia estas palavras e não consiga evitar um sorriso, uma risada até, pela minha ingenuidade. Aceito isso e acredito! Sei lá o que aí vem, sei lá como vou estar daqui a um ano. Talvez daqui a um ano eu próprio me ria ao reler isto.

Mas agora faço o melhor que posso. E por muito que isto custe, por muito que ainda doa, por muito que, por vezes, ainda me choque, por difícil que seja, prefiro atirar-me à vida com todas as minhas garras. Não ser demasiado brando comigo. Usar todas aquelas verdades que se usam para consolar ("Posso fazer uma vida normal, isto não é uma sentença de morte, não muda assim tanto") e consolar-me, acreditar nelas objectivamente. Se são verdades, porquê virar-lhes as costas como se elas não chegassem? Se é verdade, vou fazer um esforço para as ter como verdade, acreditar nelas e andar na direcção oposta de um abismo, deste abismo. Um abismo que, confesso, é tentador, mas, meus amigos, eu realmente tenho mais que fazer.

Imagino-me, por vezes, a rosnar à frente do hiv. A rugir. Como quem diz "tu falas alto, mas quem manda aqui sou eu". É a minha forma de tentar fazer com a minha vida aquilo que eu quiser, assumir (retomar) algum controlo, recuperar as rédeas disto. Porque, na verdade, também se trata disso. Depois de ter sido diagnosticado, era "isto" que conduzia a minha vida. Era este medo que mostrava o caminho. E, um dia, percebi que ia ser sempre assim. A menos que eu tomasse uma atitude. E foi aí que decidi não deixar este luto arrastar-se indefinidamente. Não deixar este luto definir-me. Até porque quando um luto se estica demasiado no tempo, ele começa a moldar-nos, a mudar-nos. E assimilamos determinadas características próprias de um estado de luto. E eu não quero ser assim, não quero viver assim. Quero a alegria de antes, outra vez. Quero ainda mais, na verdade, porque agora dou um valor diferente às coisas.

Eu quero é ser feliz. Ponto.



Tuesday, January 8, 2013

8

Hoje pela primeira vez pensei "a minha vida é igual". Depois apercebi-me que hoje faz oito meses. Pela primeira vez em oito meses, senti que sou a mesma pessoa que era antes. Vou ali digerir esta vitória e já venho.

Friday, January 4, 2013

Há coisas para fazer


Pergunto-me várias vezes qual o propósito de ter sido infectado com hiv. Eu, que sou um gajo que acredita, não consigo evitar pensar que isto tem de ser aproveitado para algo maior, maior que eu, maior que isto. Dou voltas à cabeça, risco as ideias mais óbvias, continuo à procura. Talvez seja idiota pensar que há um objectivo nisto. Talvez seja uma gigantesca demonstração de uma megalomania à espreita, um delírio semi-messiânico.

Mas, por outro lado, irrita-me pensar que o que tenho a fazer é simplesmente tratar de mim, aceitar a doença, seguir em frente. Não que haja algo de errado com isso, não que isso seja propriamente fácil. Aliás, é a tarefa mais difícil que já enfrentei, na verdade. Mas parece-me redutor não tentar usar isto para melhorar a vida de alguém, a visão de alguém...

Conversava no outro dia com alguém que falava em "carregar bandeiras". Essa ideia irrita-me, por sí só. Não quero carregar bandeiras de nada. Aliás, a minha resposta nesse dia foi que a única bandeira que temos de carregar é a nossa bandeira individual, é por essa, principalmente, que temos de lutar. Não quero carregar o estandarte do hiv. Mas é como um amigo me disse há uns anos quando lhe perguntei se ele (homossexual) defendia activamente os direitos dos gays. Ele respondeu-me que defendia os direitos humanos...

Acho que a questão aqui é sempre mais abrangente. Não se trata de fazer uma marcha, trata-se de usar uma "tragédia" pessoal para ajudar/ melhorar algo ou alguém. Fazer alguma diferença. Isto começa a soar-me terrivelmente egoísta... mas não é esse o objectivo!
Obviamente, para ajudarmos outros, temos primeiramente de conseguir ajudar-nos a nós próprios. Só quando estamos a 100%, quando estamos/somos saudáveis, a todos os níveis, é que podemos oferecer-nos a outros e prestar qualquer tipo de ajuda real. De outra forma, vamos piorar tudo. E eu estou a trabalhar nisso. Estou a tentar passar por todas as fases de luto que este diagnóstico me tem colocado pela frente, não saltando nenhuma, para daqui a uns tempos poder dizer que estou verdadeiramente bem. Digeri, compreendi, aceitei. Há que compreender, há que aceitar, há que perdoar.

Eu hei-de estar bem. Eu hei-de conseguir perceber isto. Entretanto, let's keep moving forward.

PS. Ah! Feliz 2013...

Tuesday, December 25, 2012

Natal I


Faz quase dois meses desde a última vez que escrevi aqui. Deixei de escrever, não por falta de necessidade ou de vontade, mas porque, de repente, o discurso fluido (até então) interrompeu-se. Detesto ter de fazer seja o que for por obrigação, e escrever aqui encaixa nessa categoria. 

Queria obrigar-me a escrever porque queria continuar o blog, continuava a ter coisas para dizer, mas houve um writer's block qualquer que me travou.

Hoje, já sabia que, mais cedo ou mais tarde durante o dia, viria cá. O Natal deixa-me sempre nostálgico. Há uma série de circunstâncias um pouco incontroláveis que fazem com que as expectativas em relação a esta época disparem e quando não é uma altura tão feliz quanto antecipámos, sentimo-nos defraudados. 

Este é o primeiro Natal desde que fui diagnosticado. Sinto que a minha estabilidade emocional tem vindo a derrubar barreiras nos últimos tempos (faz hoje sete meses e dezoito dias desde o diagnóstico, but who's counting?...) mas confesso que estava um pouco apreensivo em relação a esta altura do ano. Quando passo muito tempo com a família, continuo com aquela sensação de que, a qualquer momento, a "verdade" vai saltar-me da boca, sem eu o poder evitar, e revelar-se a todos. Assustava-me imenso, cheguei a sonhar que a minha família descobria onde eu tinha os ARV's escondidos e tinha de lhes contar tudo... 

Mas, curiosamente, estava até com algum entusiasmo em relação a esta fase. Obviamente, a quadra não foi muito parecida com o que tinha pensado, pelo menos cá por casa. E o que provocou isso foram pequenas situações, pequenas tricas, pequenos comentários no ambiente em que me encontrava. E dei por mim a tentar salvar o dia. Dei por mim a tentar animar as pessoas, a tentar criar um bom ambiente, de alegria e descontracção. De repente, a ironia disto tudo caiu em mim. Eu, louco e instável, a tentar salvar o Natal!

A verdade é que as pessoas, por vezes, conseguem ir buscar forças e perspectiva a sítios desconhecidos e nas alturas mais difíceis. Não sei bem como, mas acontece. E agora, estou aqui, a desejar que isto acabe, mas feliz porque a cada momento que passa, é mais um que passou. E poderei dizer que sobrevivi ao primeiro Natal sem ter um colapso nervoso.

E agora é altura de voltar a escrever porque há coisas que continuam a ter de ser relatadas. Já estou na segunda metade daquele período de 12 meses anunciado como o período make or break após este diagnóstico. Já resolvi algumas coisas, mas continuo a ter de resolver outras. E quero partilhar isso aqui. Por várias razões, talvez isso possa ajudar outros (fico triste ao pensar em alguém a iniciar este caminho agora...). 

Preciso de purgar isto tudo. Um dia, venho aqui e relembro o que estava a sentir nesta fase, o que me passava pela cabeça, como eu imaginava o futuro e o quão diferente ele é. Quero que seja um álbum de fotografias mentais deste ano. Para que nunca me esqueça.



Friday, October 26, 2012

Alexandra

Vi o vídeo desta reportagem no site dezanove e confesso que o que vi foi melhor do que estava à espera, avaliando só pelo título do artigo.

Deixo aqui o link porque vale mesmo a pena ver a história da Alexandra. Só tenho pena de não fazer a mínima ideia de como poder escrever-lhe. Apenas para lhe agradecer.

"A inspiradora história de Alexandra - SIC"


Wednesday, October 24, 2012

A culpa


Há um turbilhão de sentimentos que me têm invadido desde o "fatídico" dia. Um que me tem assolado particularmente é a culpa.

É impossível saber com exactidão, nas minhas circunstâncias, de onde veio a minha infecção. Quando descobri, tentei falar com as pessoas com quem tinha tido um contacto sexual antes de ter assumido uma relação monogâmica, cerca de um ano antes do diagnóstico. Todas elas estavam "limpas" (cada vez detesto mais o uso desta expressão... estarei eu sujo???). O que quer dizer que a minha infecção veio de um outro contacto sexual mais "casual" ou veio da pessoa com quem entretanto entrei numa relação. Devido a timings de testes de despiste, etc, chegámos à conclusão que as probabilidades/ circunstâncias ditavam que a infecção tinha acontecido primeiro a mim e só depois ao meu namorado.

Lembro-me de estarmos os dois no hospital à espera da folhinha de papel e eu rezava (literalmente rezava). Rezava para que nada daquilo se concretizasse, para que tudo fosse apenas um gigantesco e horrível susto, para que se se confirmasse que eu estava infectado, pelo menos que o meu namorado não estivesse (pensava eu que, com alguma sorte, talvez nunca tivesse passado para ele). Acima de tudo, este último desejo: conseguia conviver com o facto de eu estar infectado, mas não com o facto de ter trazido "isto" para a vida dele.

Entretanto, confirmou-se o pior.

Hoje, pergunto-me: como é que eu vivo com este sentimento de culpa? Como é que consigo viver dia após dia, sabendo que se eu tivesse tido mais cuidado, não estaríamos nesta situação? Por outro lado, se eu e ele tivéssemos tido mais cuidado, não estaríamos também nesta situação...

A verdade é que uma infecção, quando ocorre durante uma relação sexual, acontece sempre por (ir)responsabilidade de duas pessoas. Nenhum de nós apontou uma pistola ao outro e o obrigou a ter relações desprotegidas. Estes são os factos. Na verdade, eu não "trouxe" isto para a vida dele. Os nossos comportamentos fizeram isso. Há um grande factor de responsabilidade que está envolvido em toda esta situação. Como tudo na vida, tenho eu vindo a descobrir gradualmente, tudo passa por escolhas. E há alturas em que é necessário assumir que nós é que fizemos essas escolhas, mesmo que tenham sido erradas, mesmo que tenham tido consequências catastróficas, mesmo que sintamos um arrependimento profundo em relação a elas.

Acho que tenho de aprender a fazer as pazes com as escolhas que fiz no passado. Algumas foram certas, outras foram terrivelmente erradas. Mas não posso assumir responsabilidade total pelas consequências de algumas delas. Um dia, de uma vez por todas, terei de ser capaz de me perdoar, de resolver esta culpa, este fardo que, embora normal (por um ponto de vista), não é justificado, não é justo, não é possível. Não sei se ele me perdoou, se algum dia será capaz de o fazer, ou se algum dia me culpou realmente por tudo isto. Sei que eu tenho de chegar a algum acordo comigo mesmo, tenho de ultrapassar, tenho de perdoar.

Claro que este é o meu lado objectivo e racional a falar. Mas um dia, o meu lado emocional chega lá também.

Wednesday, September 19, 2012

Precisamos de uma Lady Gaga

Confesso que não gosto muito da Lady Gaga. Gosto de duas ou três canções dela e acho piada a certas "coisas" dela, mas no geral acho demasiado sobreestimado. Talvez um dia mude de ideias.

No entanto, o que me surpreende é a quantidade de gente que ela tocou. A mulher tem vendido como ninguém, tem mais seguidores no Twitter que qualquer outra pessoa no mundo e muitos adolescentes são completamente maluquinhos por ela. E pergunto-me: " Que nervo é que ela tocou para ter conseguido isto? Que espaço vazio é que ela veio preencher?" Ok, na verdade, não costumo perguntar-me acerca da Lady Gaga, mas dá-me jeito para o post.

E onde quero chegar com isto é aqui: nós precisamos de uma Lady Gaga. E por "nós" quero dizer "nós, os seropositivos". Quem me ler que me perdoe, eu sei que estou sempre a falar no estigma do hiv, mas essa sim, é uma questão que me ocupa a mente. Quando faço uma pesquisa na internet do género "Celebrities with hiv", aparecem-me muito poucos resultados. E a maior parte é um grupo de pessoas desconhecidas de muita gente. Era bom que aparecesse alguém com o impacto da Lady Gaga, com o alcance global que a senhora tem, com a pica toda que a senhora tem, e depois dissesse: "I'm hiv positive." Ia desmistificar tanta coisa! Ia pôr uma cara no vírus, dar-lhe uma identidade, tirá-lo do anonimato. Talvez isto seja um fardo demasiado pesado, mas não tem de ser. As pessoas não conhecem ninguém com hiv (pensam elas...) e ao dar-lhes um modelo (e ainda por cima um que dança, canta, anda de um lado para o outro, tem uma personalidade), iam perceber que é possível que qualquer pessoa tenha este vírus dentro de si e que não tem de ser algo estranho, pode ser apenas algo com que se vive. Para além de todos os efeitos colaterais consequentes: um aumento da consciência desta condição e do que ela engloba, um melhor conhecimento de formas de prevenção e, claro, uma desmistificação, um atenuar da estigmatização.

Tal como o Ricky Martin sair do armário veio ajudar as comunidades gays latinas e um pouco por todo o mundo, precisávamos de alguém do género a fazer o mesmo por nós. Mostrar que isto não tem de ser um bicho de sete cabeças. Mostrar que não é preciso andarmos escondidos ou com medo. Que há coisas bem piores.

Alguém se oferece?

...



Saturday, September 15, 2012

Acknowledgement

Um pequeno agradecimento a quem me escreve e fala de si. O facto de pegarem no computador e escreverem, de me contarem as suas histórias, de exporem as suas angústias, os medos, os progressos, as vitórias, os sonhos de um futuro, a esperança... Faz-me acreditar que vale a pena vir aqui e escrever o que me passa pela cabeça.

A partilha, nesta situação, é tudo.

Obrigado!

Sunday, August 26, 2012

A cure for the virus and another for the soul

Há uns dias, vi o vídeo da entrevista com o Paciente de Berlim , supostamente a primeira pessoa no mundo a ser curada do HIV.

Supostamente, porque há ainda muitas dúvidas relativamente ao uso do termo "cura". A verdade é que este homem, Timothy Brown, seropositivo desde 1995, recebeu um transplante de medula óssea em 2006 e, mesmo tendo parado de tomar a medicação ARV, tem o corpo livre do vírus. Por muitos testes que façam, não conseguem encontrar qualquer resíduo de HIV. Mesmo assim, os médicos e cientistas à sua volta continuam a dizer que é possível que existam "bolsas" de vírus algures no seu corpo. Mas, mesmo assim, os testes dizem que este senhor é HIV-negativo.

Entretanto, dois homens em Boston, EUA, passaram pela mesma experiência e têm um status serológico negativo, apesar de ainda tomarem os ARV. Por esta razão, não são ainda equiparados com o caso do Paciente de Berlim.

E agora, pergunto: é suposto ficarmos esperançosos? É suposto permitirmo-nos acreditar que "em breve" poderá haver uma cura descoberta e que será depois disponibilizada?

O cinismo dos tempos em que vivemos diz-nos que não. Existe um negócio à volta da medicação ARV, um negócio de muitos e muitos bilhões de dólares. Em Portugal, felizmente, não preciso de pagar absolutamente nada de cada vez que vou à farmácia buscar os dois frasquinhos de comprimidos. Mas alguém os paga. Neste caso, o Estado. E os mais cépticos dizem que isso fará com que uma cura dificilmente venha a ser conseguida. Ou, pior ainda, partilhada com o Mundo. Sim, porque há muitas vozes que dizem que a cura já existe e está há algum tempo mantida em segredo pelas grandes indústrias farmacêuticas. O modelo capitalista em que vivemos diz-me que esta é uma versão com alguma probabilidade, ou pelo menos sentido, de ser verdade. Mas é repugnante, revoltante e simplesmente triste acreditar, por segundos que seja, numa coisa dessas. E quem diz em relação a uma cura para o HIV, diz o mesmo para uma cura para o cancro, por exemplo, da qual se diz o mesmo.

Mas não posso acreditar nisso. Não posso. Para mim, equivale a desistir, de certa forma, da ideia de que um dia vou ter a alegria de saber que descobriram uma cura, que afinal vou poder tirar isto de dentro de mim. Acreditar nesta versão equivale a uma rendição.

Hoje, com os resultados cada vez melhores e uma confiança renovada em que vou atingir os parâmetros desejados (carga viral indetectável e cd4 em níveis "normais"), continuo a ficar triste. Porque, apesar de estar a fazer tudo certinho com os meus fiéis amigos ARV e as coisas estarem de facto a melhorar, isso não quer dizer que estou a curar-me. Vou continuar a ter isto cá dentro. O aspecto "definitivo" deste diagnóstico (de que tantas vezes falei já) continua a ser uma das maiores fontes de desânimo. Eu posso deixar de fumar, de beber, de me drogar, posso comer muita frutinha, muitos vegetais, posso correr e cuidar do meu corpo. Mesmo assim, continuarei sempre a ser seropositivo. E, de cada vez que chego a esta conclusão, só consigo pensar "Foda-se.".

Por isso, correndo o óbvio risco de ser ingénuo, de ser crente, de ser burro, vou deixar-me alimentar um bocadinho que seja por histórias e casos como o do Paciente de Berlim. Porque, nesta fase, tem mesmo de ser.



Thursday, August 16, 2012

I can see clearly now

E finalmente vieram as boas notícias. Depois de algumas semanas em que as notícias iam sendo sempre piores que as anteriores, eis que veio a reviravolta.

CD4 - 327
Carga viral - 1931

E respiraaaaaaaaaaaaaaaaaaaa......

Eu precisava disto, precisava mesmo disto. Agora sou capaz de pensar no futuro com um bocadinho mais de optimismo. Para além dos óptimos resultados (mesmo que ainda tenha caminho para trilhar, muito), consegui fortalecer laços com elementos da equipa médica que me acompanha e sinto-me bem melhor e confiante.

Com o tempo, isto vai lá.

E, para reflectir esta "moca" de alívio, felicidade e optimismo, aqui vai disto:


Ainda não vejo tão "claramente" quando quero e preciso, mas... isto vai lá.

Thursday, July 12, 2012

Farto

Farto de pensar nisto, farto de pensar em

comprimidos,
números,
consultas,
carga viral,
análises,
lipodistrofia,
tratamentos,
marcas,
preservativos,
cansaço,
o que as pessoas podem pensar,
o que as pessoas poderiam pensar,
o que as pessoas irão pensar,
tuberculose,
pneumonia,
cd4,
vírus,
vírus,
vírus,
morte,
vida,
sexo,
isto é contagioso,
aquilo não é contagioso,
"se tu soubesses...",
filhos,
esperma,
sangue.
A minha mãe. A minha mãe...

Farto de olhar para a minha cara ao espelho à procura não sei do quê.

Farto desta merda.

Tuesday, July 3, 2012

Meds

Hoje é a 5ª toma da combinação Truvada + Stocrin.

Até agora, muito poucos efeitos secundários. Quando acabo de tomar, ao final da noite, após alguns minutos, tenho uma sensação parecida à de quem fumou um charro, mas apenas a nível físico. A cabeça um pouco pesada, mas nada de especial. Tonturas: um ou outro momento em que tenho pequeníssimas tonturas. Sonhos estranhos: sempre os tive, por isso não tenho dado por grande diferença. Sonolência: nada. Náuseas: nada.

Até tenho medo de falar. Tenho medo de entretanto começar a ter estes efeitos forte e feio. Mas... um dia de cada vez. E, de qualquer forma, o importante é que este cocktail funcione e daqui a um mês e meio, quando receber os resultados das próximas análises, os números estejam muito melhores. Na verdade, isso é a única coisa que importa.

Don't fail me, body! E tal como digo para o vírus quando já estou na cama, depois de tomar a medicação:

"Die, motherfucker, die!"



Saturday, June 30, 2012

Valores I

Resultados de Maio de 2012

CV: 739473 cópias / ml
CD4: 231

Medicação iniciada a 28 de Junho: Truvada e Stocrin.

2º dia após início de medicação: ainda sem efeitos secundários.

Wednesday, June 27, 2012

O Silêncio - divagações sobre o estigma



Algo que me tem dado que pensar nos últimos dias relaciona-se com o estigma existente à volta do HIV. Eu já o sabia antes, mas agora sinto-o ainda mais: detesto estigmas sociais. Sinal de burrice, de ignorância, de medos infundados.

Uma das grandes ironias relacionadas com o meu diagnóstico tem a ver com a fase em que estava nessa altura. Sentia-me finalmente livre do peso de um segredo: eu durmo com homens *inserir txaram aqui* .

Não posso dizer que fui das pessoas que viveu mais atormentada com esse peso, até porque a definição da minha sexualidade foi algo que veio gradualmente e numa idade em que conseguia fazer uma análise mais madura da questão. No entanto, não posso dizer que foi fácil. Nos últimos meses, vinha finalmente a sentir que esse peso era cada vez menor. Sentia-me bem comigo mesmo e estava a atingir uma fase de paz interior no que a isso diz respeito. Literalmente dias depois de concretizar este raciocínio, sou diagnosticado com HIV. Quando percebi a ironia de ter ganho um peso, um segredo, logo depois de me ter livrado de outro, comecei a rir. Porque a vida é de facto irónica!

E começo a estabelecer paralelos entre as duas situações. A minha atitude ao contar às pessoas mais próximas sobre o diagnóstico era pedir-lhes segredo e discrição, sublinhando a importância e seriedade desse compromisso. Ao fazer isto, estou obviamente a proteger-me (na verdade, não só a mim mas também a outras pessoas, a "protegê-las da verdade"...). Mas estou também a contribuir para o silêncio. Este silêncio que envolve a seropositividade. Não digo que comece a usar uma bandeira, mas se fosse uma outra doença teria menos problemas em divulgá-la. Quando se tem um cancro, recolhem-se reacções de pena e solidariedade. Quando se tem HIV, passa-se por promíscuo e/ou contagioso? Talvez, para algumas pessoas. Mas é por isso mesmo que quem é positivo não deveria escondê-lo. Já li várias vezes sobre pessoas que tinham vidas totalmente convencionais e foram infectadas. Depois do diagnóstico, continuam a levar vidas normais e convencionais. Se as pessoas percebessem que não há nada de errado em ser positivo, seria muito mais fácil. Afinal, se hoje é possível viver com isto de forma perfeitamente normal, se hoje já não é um bicho de sete cabeças, porque é que ainda se age como se fosse?

A verdade é que de certeza que todos nós conhecemos uma ou mais pessoas que são seropositivas. Porque não é uma doença que se veja e porque quem a tem não o divulga. Mas se alguém perguntar a determinadas pessoas que eu conheço se conhecem alguém seropositivo, elas diriam que não e isso não é verdade! Assim, o mais provável é que eu e todos nós já conheçamos alguém nestas circunstâncias e não fazemos ideia.

Tal como com a homossexualidade, se as pessoas assumissem a sua "condição", muitas barreiras seriam derrubadas mais rapidamente. É claro que não sou ingénuo ao pensar que isto é assim tão fácil e simples. Mas, neste momento, estou revoltado com isto de ter de guardar segredos. Guardam-se segredos sobre coisas que não têm de ser escondidas!

E, no entanto, eu falo e falo e estou neste momento a contribuir activamente para isso. Talvez um dia tenha força para dar o exemplo...

Wednesday, June 20, 2012

Sexo... com ou sem culpa


Como já disse, uma das grandes mudanças a nível de estilo de vida, depois de um diagnóstico de HIV, dá-se a nível sexual. O HIV é um vírus sexualmente transmissível. Sempre soube disto e, no entanto, só quando se passa pela experiência é que nos apercebemos da revolução que se dá.


Depois do diagnóstico, tive uma quebra drástica e absoluta do interesse sexual. Não queria sequer pensar em sexo, em pulsões, em desejo. Eventualmente, começam a sentir-se formigueiros outra vez... Mas já não é da mesma forma. Por várias razões. Porque foi através do sexo que fui infectado. Foi daí que veio tudo isto. Depois, quando se começa a praticar sexo (e agora com todas as precauções possíveis), olhamos para cada momento de forma diferente. Não sei sequer se já sou capaz de verbalizar o que me passa pela cabeça nessas ocasiões (não que tenham sido muitas...). A noção do nosso corpo muda. Às vezes, olho-me ao espelho e pareço que vejo o vírus a circular debaixo da minha pele, na minha cara, nos meus braços, nas minhas pernas. Logo, durante o sexo, essa consciência agudiza-se. Esperma já não é "só" esperma. Agora, parece ser uma arma. Uma arma com a qual posso fazer mal a alguém. É uma noção horrível que talvez desapareça com o tempo, não sei. Mas é das coisas que mais mexe comigo.


Depois, as pulsões... Também elas são abordadas de forma diferente. Se vejo alguém atraente na rua, posso pensar (como pensaria antes) que essa pessoa é interessante, sexualmente estimulante e que gostava de me envolver com ela. Mas agora, logo a seguir a esse fluxo de ideias vem logo a pergunta "Mas será que essa pessoa iria envolver-se comigo se soubesse? Provavelmente não..." É mais que óbvio que todos estes pensamentos são uma enorme perda de tempo e de espaço mental, mas não consigo ainda defender-me deles.


E a culpa. A culpa que sinto por ter deixado isto acontecer. Por ter sido ingénuo e preguiçoso ao pensar que "isto só acontece aos outros". Por me ter posto numa situação de vulnerabilidade perante quem dorme comigo ou quem eu quero que durma comigo. A verdade da qual não posso escapar: eu, o meu comportamento provocou isto.


E fazer sexo é repetir o momento em que isto me aconteceu. Se alguém faz bungee jumping e algo corre mal e quase se tem um acidente fatal, o mais certo é que essa pessoa nunca mais repita a experiência. Não se vai repetir algo que já resultou tão mal, não é? Mas não podemos deixar de fazer sexo! Não podemos bloquear esse nosso lado, essa natureza. Somos animais sexuais, ponto.


A grande questão é: como é que se faz sexo, como é que se vive o sexo depois de uma coisa destas. 

Quando tiver respostas, digo.