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Sunday, June 15, 2014

A gota de água


Durante algum tempo, após o meu diagnóstico, senti que "enlouqueci" um pouco. Parecia estar num estado diferente do normal, mais ansioso, mais propenso a atitudes drásticas ou emocionais. Sentia-me frequentemente à beira de algo e esse algo não era bom... Este estado acabou por se estender no tempo, não de forma constante, mas sim esporádica. Sentia que tinha havido uma montanha russa de sentimentos tão intensa dentro de mim, que ia demorar até conseguir estabilizar. Por vezes, justificava determinados comportamentos com tudo o que me tinha acontecido: estados mais nervosos, mais apáticos, reacções mais extremas, etc. E, de facto, era verdade. Mas estes momentos começaram a ser cada vez menos frequentes até, eventualmente, ter chegado à conclusão que já não podia usar a "desculpa" do hiv para justificar os meus comportamentos menos correctos ou "normais". Comecei a sentir-me eu próprio, finalmente. Mas entretanto, havia um padrão criado que tinha de ser corrigido: a atribuição de estados de espírito ou atitudes ao facto de ter hiv e de ainda estar a adaptar-me a toda a situação. Percebi que já estava adaptado e não podia esconder-me atrás do hiv e daquilo que tinha sofrido. "Agora já não tens desculpa."

No entanto, há uma sensação que continua a existir e que talvez necessite de um maior controlo da minha parte. Quando tudo corre mal, quando me sinto frustrado com o meu trabalho, quando tenho pouco dinheiro, quando me sinto negligenciado pelos amigos, quando me sinto só e desapaixonado, o hiv é a gota de água que facilmente me envia numa espiral de depressão. "E para além disto tudo, ainda tenho hiv...". Racionalmente, esta é uma táctica de self-pity que me irrita imenso e com a qual não quero ser conotado. Há poucas coisas tão unsexy como pessoas que sentem pena delas próprias. Mas admito, infelizmente, que por vezes caio nisso. E é errado. Principalmente, quando conseguimos perceber, através do véu dessa mini depressão, que nos estamos a aproveitar de uma situação cada vez melhor resolvida na nossa cabeça para adicionar um pouco de drama. E quando nos apanhamos a usar essas tácticas, não há como nos escondermos de nós próprios. Conseguimos sempre perceber que estamos a fazer batota.

Penso que faz parte da "recuperação" do hiv, aprender a não usá-lo como desculpa. Se de facto me sinto melhor, mais no controlo de mim próprio e da minha vida, se sinto que o hiv já não é assim tão complicado, porque é que vou usá-lo para demonstrar/ enfatizar a mim próprio como a minha vida é difícil em alguns momentos? Essa gota de água tem de deixar de existir, simplesmente. E sinto que tenho de me policiar mais nesse sentido. Às vezes, pergunto-me qual é exactamente o meu problema. Se não tivesse hiv e tudo o resto fosse igual, sentir-me-ia na mesma? Ou o hiv agrava? Se não tivesse hiv, seria mais feliz no trabalho? Teria mais dinheiro? Teria um namorado? Não, tenho de ser honesto e dizer que o hiv agrava muito pouco nesta fase. E, por isso, tenho de deixar de ceder à tentação de desculpar ou justificar o menos bom na minha vida com este vírus. Trata-se de ser honesto e é mais uma parte de todo o propósito de retomar as rédeas da nossa vida. E, tal como muitas outras coisas, esta mudança exige esforço, exige de mim. Mas é mais um passo rumo à libertação total. E eu não quero falhar nem um.


Friday, April 18, 2014

Edge


Já há muito tempo que não escrevia aqui. Desde a última vez, muito aconteceu e muito começou a mudar. Felizmente, o tal cansaço de que falava no último post começou a desaparecer há algum tempo atrás. Há uma aceitação diferente de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos. Há pazes a serem feitas.

Houve vários factores que contribuíram para este processo, para este caminho. Comecei a sentir a necessidade, bem como a possibilidade, de mudança em mim. Precisava de dar mais passos em direcção à pessoa que sempre ambicionei ser, à vida que sempre imaginei que teria. Com o tempo, apercebemo-nos que aqueles sonhos de adolescência, os ideais, as expectativas, não acontecem por si só. A tal ideia de "the universe works with us, not for us". E, a certa altura, percebi que não só precisava de me aproximar desse ideal, de fazer um esforço para que isso acontecesse, como me sentia preparado para começar a trabalhar essas mudanças. E é nesse processo que entrei há uns meses atrás e que está a ser cumprido gradualmente.

Parte importante deste processo era libertar-me de "pesos", deixar segredos para trás, porque na verdade já não era importante mantê-los. E, por isso, decidi contar aos meus pais acerca do hiv. E foi uma sensação tão boa ou melhor do que eu antecipava. Claro que há as reacções de tristeza e de choque, são naturais. Mas há também a aceitação, a partilha. E nesta fase, sinto-me bem o suficiente para poder contar-lhes e depois tranquilizá-los de que realmente estou bem.

Os médicos e terapeutas apontam sempre para um período de luto de 12 meses, após um diagnóstico de hiv. Eu tentei cumprir esse prazo mas não consegui. Um ano não chegou para digerir tudo o que tinha acontecido. Houve uma altura em que não sabia como iria deixar esse luto para trás, como aceitar. Mas com o tempo comecei naturalmente a concentrar-me noutras áreas da minha vida e o hiv passou a ocupar uma gaveta cada vez mais pequena... Houve momentos em que pensei que nunca iria sentir isto...

Esta é uma fase auspiciosa. Estou quase a "celebrar" dois anos de diagnóstico e sinto pela primeira vez que posso e preciso realmente de celebrar. Estar grato por estar aqui, por ter passado o que passei e por ter conseguido chegar "ao outro lado", melhor, mais crescido, mais confiante e na fronteira da felicidade.

Sunday, December 1, 2013

A verdade está sozinha

Este post é um desabafo.

Sinto-me cansado. Sinto-me mesmo cansado. Esta sensação tem vindo a espreitar há algum tempo já. Tenho ignorado, tentado fazer com que desapareça mas ela volta. O cansaço que advém das emoções, dos sentimentos que batalham aqui dentro. E não dá mais para ignorar, não dá mais para varrer para debaixo do tapete, não dá mais para fingir que não existe.

Isto de tentar conviver pacificamente com uma doença tem muito que se lhe diga. Eu não estou doente, não me sinto doente. Parece-me cada vez mais que o hiv é uma doença mental do que qualquer outra coisa. Tento habituar-me, tento viver bem com isto mas não é fácil e pergunto-me se alguma vez será um problema inexistente. Tento novas abordagens: tento o confronto, tento a exposição, tento a falta de receio, de vergonha. Mas, de alguma forma, tenho vindo parar sempre a esta solidão em que me encontro. E essa é a derradeira conclusão: sinto-me só. O que, na verdade, não faz grande sentido. Tenho a certeza que há pessoas com hiv e que se encontram em situações tão piores. Situações de desespero, de verdadeira solidão, de isolamento. E quando penso nisto sinto-me um puto mimado. Mas, como diz a sabedoria popular, "com o mal dos outros podemos nós". Verdade.

Tenho tentado novas abordagens, como disse. Tudo isto passa por arriscar em situações que são novas desde o diagnóstico, como por exemplo, conhecer alguém, interessar-me por alguém. Tenho tentado ser corajoso e assumir-me como sou, desde o início. Para quê? Para evitar perdas de tempo. Não me apetece andar a iludir alguém (incluindo a mim próprio) e atrasar uma revelação que pode ou não condicionar o resto. Assim, falo, assumo, revelo. Ao mesmo tempo, para tentar pautar a minha atitude perante a vida e este vírus com honestidade, abertura, coragem. E a dificuldade não reside aí. O problema está em algo muito maior do que dizer a alguém "tenho hiv". O problema é lidar com situações que acontecem a toda a gente, mas à luz desta nova condição. O problema é lidar com a rejeição. O problema é pensar no futuro.

Antes do hiv, achava que encontrar alguém com quem partilhar uma vida não era tarefa fácil. Pior ainda se se fosse homossexual. Pior ainda quando se é homossexual com hiv. E, por muito que possam existir pessoas em situações piores, por muito que a rejeição aconteça a tantos, por muito que estes sentimentos sejam comuns, tenho de, muito simplesmente, perder o pudor e deixar-me de merdas e dizê-lo. Sinto-me só.

A solidão é estranha. Quando se instala, é quase imperceptível. É necessário haver um vislumbre de algo muito melhor para de repente percebermos a diferença. E é nesse ponto que me encontro. Conheci alguém, após muito tempo sozinho. Dei-me a conhecer, por inteiro. E a sensação de ter alguém a segurar-me a mão, a agarrar-me o corpo, foi tão boa. Tão, tão boa. E, de repente, acabou. Fui rejeitado. E não vale a pena dramatizar (ainda mais...), isto acontece a toda a gente. O problema aqui é que, pelo contraste com os últimos (largos) tempos, isto veio demonstrar o quanto eu sentia falta disto. A dor aqui não é o ter sido rejeitado, eventualmente isso há-de passar. A grande questão foi a revelação dura, simples, fria, de que, na verdade, sinto-me sozinho. E perceber isso em mim deixa-me triste. Sinto-me triste ao perceber que foi aqui que a vida veio dar, mesmo que apenas por enquanto. Olho à minha volta e vejo motivos de orgulho, de satisfação. Mas porque é que é tão difícil adequar as proporções de todas as partes da nossa vida? Porque é que as vitórias parecem tão menores quando comparadas com o que nos falta, o que nos dói? Apetece abanar-me a mim mesmo e dizer, alto e bom som, com alguma agressividade, "Deixa de ser parvo, deixa de sentir pena de ti próprio, deixa de dramatizar." Mas... isso é o que tenho andado a dizer a mim mesmo nos últimos meses...! Hoje não me apetece mais fazer isso. Hoje apetece-me olhar no espelho e dizer a verdade, assumir aquilo que sinto, em vez de usar argumentos para tentar fazer-me sentir melhor. Talvez, às vezes, necessitemos disso, de simplesmente assumir o que sentimos, mesmo que seja para ficarmos tristes durante um pouco. Talvez se me permitir ficar triste um pouco, amanhã acorde melhor. 

Hoje, não tenho hipótese. Esta constatação tem vindo a aproximar-se do meu consciente, cada vez mais, cada vez mais perto. E agora, aqui está. E aqui estou eu. Mais uma vez, ponho a minha atitude defensiva, combativa. Nada me manda abaixo, nada. E isto não vai ser nada, não há-de ser nada... no futuro. Hoje, presente, ainda é qualquer coisa.



Como disse no início deste post, isto foi um desabafo. Ao reler o que escrevi, não consigo sequer ter a certeza que irá fazer algum sentido se alguém o ler. Mas mantendo a filosofia do desabafo, vou deixar assim, em discurso livre, em torrente de pensamentos.

E com a proporção adequada: é só um desabafo.

Friday, November 8, 2013

Revelação, Tempo , Caminho


Hoje, faz um ano e meio desde o meu diagnóstico.

Tudo tem sido mais fácil, ultimamente. A medicação tornou-se um hábito, regular e consolidado. As idas ao hospital para análises, vacinas, consultas, comprimidos, também... é chato, mas faz-se. Nada na minha vida de todos os dias mudou.

Há coisas, no entanto, que continuam a assombrar-me. Nestes últimos dias, tive um grande confronto com várias dessas situações. O estigma, a discriminação, a revelação do status.

Sem ter dado muito por tudo isto a acontecer, de repente tive de lidar com uma possível situação de discriminação no trabalho. Nunca tinha imaginado como é que algo assim poderia ser. A possibilidade de me ser negada uma oportunidade, unicamente por ser seropositivo. Decidi enfrentar tudo e todos, ser claro, honesto, frontal. Revelei a minha "condição": "Temos aqui uma situação... sou seropositivo." Silêncio.

Por razões que não estão relacionadas com este assunto, este novo trabalho acabou por não acontecer. Mas a dúvida ficou: será que o hiv ia ser um obstáculo ou não? Sei que eventualmente terei de lidar com esta realidade. Mas este pequeno preview foi suficiente para me assustar. Nunca me tinha sentido assim. Algo inerente a mim, imutável, poderia impedir-me de obter um trabalho para o qual tinha sido especificamente seleccionado. Sei que muitos já passaram por isto e dói-me pensar que muitos ainda passarão. Não é justo, não é justo, não é justo. E o medo de as pessoas saberem do hiv tornou-se muito menor perante o medo de realmente ser rejeitado por isto. É óbvio que comecei a imaginar o que fazer nesse caso, até mesmo em termos legais, pois embora não esteja totalmente esclarecido em relação a estas situações, penso que seja ilegal discriminar alguém numa situação de trabalho devido ao seu estado serológico. No entanto, se chegasse a essas instâncias, o mal maior estaria feito: o ter sido, de facto, discriminado. E esse é o grande problema. É o que isto faz à cabeça de alguém, à confiança, à auto-estima. Como se não fosse suficiente o facto de ter de "carregar" isto para o resto da minha vida, o mal ainda tem de se espalhar pelas outras áreas da minha vida. Sempre me disseram que "isto" não ia alterar em nada a minha vida. Mas somos feitos de carne, ossos e sangue. E hiv, também. Por isso, a lenga lenga de "nada tem de mudar" só é verdade até certo ponto. E essa lenga lenga é necessária, porque reconfortante, mas só até determinada altura. É falsa, ou pelo menos, apenas parcialmente verdadeira.

Ao mesmo tempo, aliás, tudo isto no mesmo dia, avizinhava-se mais um momento de revelação. Estava envolvido com alguém há pouco tempo e tinha chegado o momento de falar sobre o hiv. Ponderei muito sobre se havia de o fazer ou não, se o devia fazer neste momento ou não. Penso que seja uma decisão muito pessoal. A minha terapeuta diz: "desde que tomes todas as precauções, desde que sejas responsável e não comprometas a outra pessoa, a revelação deste assunto é pessoal, a escolha é só tua". Confesso que, ao ouvir isto, houve alguma pressão que desapareceu. Mas, ao mesmo tempo, não consigo não ser honesto. A vontade de querer ser verdadeiro é maior que o medo de contar. Aliás, o medo nem é de contar, é do que vem depois. Porque ao contarmos a alguém, seja no contexto profissional ou de uma relação, há que estar preparado para lidar com as consequências: o choque, a negação, a raiva, o medo... Podem existir tantas reacções diferentes... Mas é necessário tentar construir algum tipo de preparação para o que vem a seguir. Neste caso, houve algum choque mas houve uma boa aceitação das notícias. Não houve pânico nem nada parecido. Também não vai haver relação, mas não me parece que tenha necessariamente a ver com o hiv. Seja como for, foi intenso, foram dias intensos. E que fizeram com que, mais uma vez, o fantasminha do hiv estivesse presente em cada hora de cada dia. Não foi fácil.

Luto todos os dias contra a amargura. Não quero ficar amargo, não quero criar ressentimentos em relação à vida. E esta é uma grande tarefa. Continuo a acreditar que vêm aí coisas que farão tudo valer a pena. E, lá está, como digo muitas vezes, esta é a minha cruz mas toda a gente tem a sua.  Todos temos problemas diferentes e que nos afectam de formas variadas. Isto foi o que me calhou a mim. Para quem estiver a ler isto e achar que tudo acontece por acaso, tentem não revirar os olhos... Mas eu acredito realmente que há coisas que nos são destinadas, para podermos aprender e crescer com elas. É isto que faz algum sentido para mim. E o tempo passa e eu vou aprendendo devagar a lidar com o que tenho. 

E quando penso em alguém que acabou de ser diagnosticado e lê este blog à procura de algum conforto, fico triste, porque não quero assustar ninguém. E penso no longo caminho que essa pessoa tem (temos...) pela frente. E torna-se de facto mais fácil com o tempo! Mas ainda não é simples, ainda não se tornou irrelevante. Ainda estou a trabalhar nisso.

Um dia de cada vez...


Saturday, July 13, 2013

Prince Charming


Eu, que sou rapaz solteiro, procuro o Amor. Aqui está: procuro o Amor. Sempre procurei e penso que continuarei a procurar até o encontrar. Sou romântico, mas raramente lamechas. Mas, de facto, acredito que (uma boa) parte da minha realização emocional está-me reservada nessa experiência.

Ao longo dos anos, fiz apenas uma tentativa real e consciente, um investimento a sério em alguém que imaginei, durante algum tempo, que pudesse vir a ser essa pessoa. Essa experiência fracassou.
Mas desistir é impensável. E é aqui que entra o Prince Charming. Sim, eu sou mais um dos incontáveis ocidentais que foi desmesuradamente influenciado pela Disney e que acredita que "ele" anda por aí. (A Disney e Hollywood estão juntas nisto.)

Mas como se tudo isso não fosse já difícil, eis que entra em cena o nosso amigo hiv. E agora sim, isto é um desafio. Todos os dias dou comigo a observar pessoas, a pensar se são o tipo de pessoa que aceitaria uma "condição" destas. Todos os amigos tentam tranquilizar-me dizendo que hoje em dia, isso não vai ser obstáculo, que as pessoas estão muito melhor informadas, etc... Mas eu, convicto de quem sou, daquilo que valho e mereço, não consigo deixar de achar que é preciso alguém "grande" para ultrapassar isto. E se conhecer alguém, ter interesse por alguém, ser retribuído nesses sentimentos, já é difícil, depois disso tudo ainda tem de ser alguém que aceite dividir a sua vida com alguém que tem hiv. É claro que podemos sempre restringir o grupo a outros seropositivos, pelo menos ultrapassa-se logo essa barreira. Mas isso parece-me redutor e faz-me sempre lembrar guetos... Tento sempre, no final destas deambulações, convencer-me a estar aberto a o que quer que seja. (Como é óbvio, tudo isto são assuntos muito pessoais, não estou aqui a julgar ninguém. Aliás, como sempre, penso alto, apenas. )

Mas é algo que me faz pensar e que me assusta um pouco. Tento não perder muito tempo a pensar nisto ("Que sera, sera..."). Mas a verdade é que esta é mais uma parte da vida que muda em definitivo, quando se tem hiv. Torna-se tudo um pouco mais complicado. Pode até acontecer que não seja o caso, o que seria impecável. Mas há que considerar todas as variáveis.

Eu, mesmo assim, e enquanto me debato com isto, não deixo de esperar. O Prince Charming há-de aparecer. E quando assim for, o hiv não vai interessar nada.

Friday, January 4, 2013

Há coisas para fazer


Pergunto-me várias vezes qual o propósito de ter sido infectado com hiv. Eu, que sou um gajo que acredita, não consigo evitar pensar que isto tem de ser aproveitado para algo maior, maior que eu, maior que isto. Dou voltas à cabeça, risco as ideias mais óbvias, continuo à procura. Talvez seja idiota pensar que há um objectivo nisto. Talvez seja uma gigantesca demonstração de uma megalomania à espreita, um delírio semi-messiânico.

Mas, por outro lado, irrita-me pensar que o que tenho a fazer é simplesmente tratar de mim, aceitar a doença, seguir em frente. Não que haja algo de errado com isso, não que isso seja propriamente fácil. Aliás, é a tarefa mais difícil que já enfrentei, na verdade. Mas parece-me redutor não tentar usar isto para melhorar a vida de alguém, a visão de alguém...

Conversava no outro dia com alguém que falava em "carregar bandeiras". Essa ideia irrita-me, por sí só. Não quero carregar bandeiras de nada. Aliás, a minha resposta nesse dia foi que a única bandeira que temos de carregar é a nossa bandeira individual, é por essa, principalmente, que temos de lutar. Não quero carregar o estandarte do hiv. Mas é como um amigo me disse há uns anos quando lhe perguntei se ele (homossexual) defendia activamente os direitos dos gays. Ele respondeu-me que defendia os direitos humanos...

Acho que a questão aqui é sempre mais abrangente. Não se trata de fazer uma marcha, trata-se de usar uma "tragédia" pessoal para ajudar/ melhorar algo ou alguém. Fazer alguma diferença. Isto começa a soar-me terrivelmente egoísta... mas não é esse o objectivo!
Obviamente, para ajudarmos outros, temos primeiramente de conseguir ajudar-nos a nós próprios. Só quando estamos a 100%, quando estamos/somos saudáveis, a todos os níveis, é que podemos oferecer-nos a outros e prestar qualquer tipo de ajuda real. De outra forma, vamos piorar tudo. E eu estou a trabalhar nisso. Estou a tentar passar por todas as fases de luto que este diagnóstico me tem colocado pela frente, não saltando nenhuma, para daqui a uns tempos poder dizer que estou verdadeiramente bem. Digeri, compreendi, aceitei. Há que compreender, há que aceitar, há que perdoar.

Eu hei-de estar bem. Eu hei-de conseguir perceber isto. Entretanto, let's keep moving forward.

PS. Ah! Feliz 2013...

Sunday, August 26, 2012

A cure for the virus and another for the soul

Há uns dias, vi o vídeo da entrevista com o Paciente de Berlim , supostamente a primeira pessoa no mundo a ser curada do HIV.

Supostamente, porque há ainda muitas dúvidas relativamente ao uso do termo "cura". A verdade é que este homem, Timothy Brown, seropositivo desde 1995, recebeu um transplante de medula óssea em 2006 e, mesmo tendo parado de tomar a medicação ARV, tem o corpo livre do vírus. Por muitos testes que façam, não conseguem encontrar qualquer resíduo de HIV. Mesmo assim, os médicos e cientistas à sua volta continuam a dizer que é possível que existam "bolsas" de vírus algures no seu corpo. Mas, mesmo assim, os testes dizem que este senhor é HIV-negativo.

Entretanto, dois homens em Boston, EUA, passaram pela mesma experiência e têm um status serológico negativo, apesar de ainda tomarem os ARV. Por esta razão, não são ainda equiparados com o caso do Paciente de Berlim.

E agora, pergunto: é suposto ficarmos esperançosos? É suposto permitirmo-nos acreditar que "em breve" poderá haver uma cura descoberta e que será depois disponibilizada?

O cinismo dos tempos em que vivemos diz-nos que não. Existe um negócio à volta da medicação ARV, um negócio de muitos e muitos bilhões de dólares. Em Portugal, felizmente, não preciso de pagar absolutamente nada de cada vez que vou à farmácia buscar os dois frasquinhos de comprimidos. Mas alguém os paga. Neste caso, o Estado. E os mais cépticos dizem que isso fará com que uma cura dificilmente venha a ser conseguida. Ou, pior ainda, partilhada com o Mundo. Sim, porque há muitas vozes que dizem que a cura já existe e está há algum tempo mantida em segredo pelas grandes indústrias farmacêuticas. O modelo capitalista em que vivemos diz-me que esta é uma versão com alguma probabilidade, ou pelo menos sentido, de ser verdade. Mas é repugnante, revoltante e simplesmente triste acreditar, por segundos que seja, numa coisa dessas. E quem diz em relação a uma cura para o HIV, diz o mesmo para uma cura para o cancro, por exemplo, da qual se diz o mesmo.

Mas não posso acreditar nisso. Não posso. Para mim, equivale a desistir, de certa forma, da ideia de que um dia vou ter a alegria de saber que descobriram uma cura, que afinal vou poder tirar isto de dentro de mim. Acreditar nesta versão equivale a uma rendição.

Hoje, com os resultados cada vez melhores e uma confiança renovada em que vou atingir os parâmetros desejados (carga viral indetectável e cd4 em níveis "normais"), continuo a ficar triste. Porque, apesar de estar a fazer tudo certinho com os meus fiéis amigos ARV e as coisas estarem de facto a melhorar, isso não quer dizer que estou a curar-me. Vou continuar a ter isto cá dentro. O aspecto "definitivo" deste diagnóstico (de que tantas vezes falei já) continua a ser uma das maiores fontes de desânimo. Eu posso deixar de fumar, de beber, de me drogar, posso comer muita frutinha, muitos vegetais, posso correr e cuidar do meu corpo. Mesmo assim, continuarei sempre a ser seropositivo. E, de cada vez que chego a esta conclusão, só consigo pensar "Foda-se.".

Por isso, correndo o óbvio risco de ser ingénuo, de ser crente, de ser burro, vou deixar-me alimentar um bocadinho que seja por histórias e casos como o do Paciente de Berlim. Porque, nesta fase, tem mesmo de ser.



Sunday, June 10, 2012

Caminhos

Afirmações constantes: não é uma doença mortal, é crónica; se tomares conta de ti, não terás sintomas; podes viver uma vida tão longa quanto qualquer outra... bla bla bla. Não desfazendo do que está acima descrito nem retirando qualquer verdade ao mesmo, há vezes em que nem estas frases trazem consolo.

A questão aqui é que há algo que muda após um diagnóstico. O nosso trabalho pode não mudar, o namorado ou os amigos podem não mudar, mas nós mudamos. Por dentro. Há algo que deixa de existir e ainda não consigo dizer exactamente o que é. Chamo-lhe uma inocência, uma ilusão juvenil de que, na verdade, tudo vai correr bem, as nossas vidas vão ser cheias de sucessos e quaisquer surpresas que apareçam serão certamente boas. Depois de uma notícia destas é difícil manter essa ingenuidade intacta.

E por isso digo que, mesmo com todo o apoio das "nossas" pessoas, há uma determinada parte do caminho que tem de ser feita sozinho. Porque nenhuma dessas pessoas consegue perceber na totalidade o que isto significa. Pode ser dado todo o apoio e consolo, mas há pequenas nuances que mudam e só nós é que as conseguimos ver.

Com isto não quero desvalorizar a importância de não se estar sozinho, bem pelo contrário. Se neste momento tenho alguma frieza e paz em relação a este assunto é por ter tido pessoas (e tê-las ainda) que criaram um espaço seguro onde eu pudesse estar.

Mas há uma parte da resolução desta questão que fica unicamente a meu cargo. É na minha mente que irão decidir-se as maiores mudanças de atitude, de perspectiva, de resolução deste conflito interior.

Hoje perguntaram-me se eu tinha o seguinte pensamento: "Porquê eu?". Respondi que não pois sempre tive consciência de que "quem anda à chuva molha-se". Existe por outro lado uma outra questão frequente: "Qual o sentido, qual o lugar disto no contexto da minha vida?". É mais que óbvio que isto veio alterar a minha rota.

Mas de que maneira... remains to be seen.